Por que é que as girafas não têm varizes?

Já alguma vez se perguntou porque é que as girafas, com as suas longas pernas, não sofrem de inchaço ou feridas nas pernas?

Esta questão foi recentemente abordada na revista da sociedade europeia de cirurgia vascular.*

A resposta a esta pergunta revela o segredo das girafas e como ele se relaciona com o tratamento da Doença Venosa Crónica.

 

O desafio da gravidade

O sangue depois de alcançar os pés tem de fazer uma viagem difícil: subir pelas pernas de volta ao coração, contra a gravidade.

As vávulas nas veias são essenciais para impedir que o sangue desça, a favor da gravidade.

Quando estas válvulas não funcionam bem ou quando passamos muito tempo de pé, o sangue "pesa" e tende a acumular-se nos tornozelos. Esta é a chamada hipertensão venosa, que causa cansaço, edema (inchaço) e, em casos mais graves, manchas na pele e úlceras (feridas).

As girafas enfrentam um desafio ainda maior. Devido à sua altura, a pressão do sangue nas suas patas é muito superior à nossa. Então, por que é que elas não têm varizes nem pernas inchadas?

 

As “meias de compressão" naturais

As girafas desenvolveram uma "armadura" natural. A pele das suas pernas é extremamente firme, espessa e pouco elástica.

Ao contrário da pele humana, que estica facilmente, permitindo que o líquido se acumule e que a perna inche, o que cria ainda mais pressão, a pele da girafa funciona como uma meia de compressão natural. Esta pele rígida impede que as veias se dilatem em demasia e assim obriga o sangue a subir contra a gravidade.

 

O que podemos aprender com tudo isto?

A principal lição que tiramos daqui é a eficácia comprovada da terapia de compressão. Quando o seu cirurgião vascular recomenda o uso de meias elásticas ou ligaduras, o objetivo é "imitar" a pele da girafa.

Ao aplicarmos esta pressão externa:

  • Damos suporte às veias;

  • Impedimos o inchaço (edema);

  • E assim, ajudamos o sangue a retornar ao coração com menos esforço.

 

Além da compressão, há outras soluções?

Há uma diferença importante entre nós e as girafas. Enquanto elas nascem com este sistema de proteção perfeito, os humanos muitas vezes desenvolvem veias que já estão permanentemente danificadas, dilatadas e com as válvulas não funcionantes, ou seja, as varizes.

Nestes casos, embora as meias de compressão sejam fantásticas  aliadas para controlar os sintomas e prevenir complicações no futuro, podem não ser o suficiente.

É aqui que entra a cirurgia de varizes:

  • Ao contrário das girafas, os humanos podem beneficiar da cirurgia de varizes.

  • Na maioria dos casos, poderá até beneficiar das técnicas mais modernas, como o laser ou a radiofrequência, que eliminam as veias que já não funcionam, redirecionando o sangue para as veias saudáveis.

 

Conclusão

A compressão é o "pilar" do tratamento e um ensinamento que a natureza nos deu através da girafa. No entanto, hoje em dia, dispomos de soluções cirúrgicas seguras e eficazes que poderão ser um complemento (ou até mesmo uma alternativa) para muitos doentes.

Cuidar da sua circulação é aprender a usar as ferramentas certas. Às vezes, precisamos da "pele da girafa" (a meia); outras vezes, também precisamos de um "ajuste técnico" — a cirurgia.

Se acha que precisa de ajuda, informe-se junto de um cirurgião vascular.


* O’Malley P, Why Giraffes Do Not Get Venous Leg Ulcers. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery, Volume 71, Issue 1, 3 - 4. https://doi.org/10.1016/j.ejvs.2025.06.040